Tão um do outro

Não existe uma regra que diga quando todas as relações se desgastam. Assim como os seres humanos que as compõem, cada relação possui sua singularidade, sua própria cultura e peculiaridades. Dentre elas, a mudança de comportamento ao longo do tempo pode ser uma das razões que provoque desgaste, levando pequenas coisas que poderiam ser resolvidas facilmente à justificativas que os levem a cometer atos desastrosos. Entretanto, mudanças são bem-vindas quando mostram que o casal e suas partes estão evoluindo, crescendo e se desenvolvendo não apenas juntos, mas também enquanto indivíduos. Relacionamentos possessivos nunca encaram mudanças como sendo algo positivo.

O casal é composto por pessoas que precisam trabalhar sua individualidade, ou seja, deve haver um senso de independência entre as duas partes. Falamos de duas pessoas que podem possuir trabalhos, robbys, esportes e interesses distintos, e que além disso possuem uma vida conjunta onde se amam e se contemplam. Essa autonomia é importante para que não seja estimulado dentro da relação o pensamento de que precisam fazer tudo juntos, em outras palavras: só podem ser felizes um com o outro, se sentirem realizados apenas naquilo que vivem juntos.

Falamos de uma liberdade saudável, que nos permite acessar o lado positivo da relação e construir valores que autentiquem ainda mais o sentimento vivenciado. Ainda que a intimidade seja aconchegante, é preciso termos momentos de resgate de que somos seres completos que escolhem ficar juntos, não alimentando, assim, a dependência das partes. No começo do relacionamento, o casal tem a tendência de esquecer as pessoas ao redor, o mundo é exclusivo dos enamorados. Entretanto falamos de uma característica que se estende, que não existe apenas na fase inicial da relação, podendo demonstrar também traços de personalidades das partes que a compõe.

É possível que estejamos falando também de traços de um sentimento lentamente autodestrutivo: possessividade. A falta se segurança no sentimento e no que existe entre as duas pessoas, leva ao indivíduo adotar comportamentos de ciúmes e recorrendo à estratégia da chantagem emocional. No começo do relacionamento a pessoa com características possessivas sempre se mostra carinhosa, receptiva, bem-humorada, aberta e gentil. Nesses relacionamentos o carinho e cuidado atingem níveis elevados e acabam tornando a relação tóxica e contribuindo para o esgotamento emocional. Importante colocar que em alguns casos, essa postura pode estar associada a uma conduta machista onde há predominância da figura do homem sobre a da mulher, que deve ser submissa. Nesses casos, o controle pode acontecer em formas de chantagem e depreciação da figura da mulher, podendo se enquadrar como um crime resguardado pela Lei Maria da Penha através de violência psicológica, física, emocional ou financeira.

Sempre escutamos dizer que “não é bom colocarmos todos nossos ovos em uma cesta só”, pois caso ela caia, perdemos tudo. Essa frase nos faz refletir da importância de não estimularmos apenas uma potencialidade nossa, apenas um sentido de nossa existência, pois com o tempo se algo acontece podemos perder o pilar principal daquilo que somos e adoecer. Uma pessoa que entende que sua felicidade está diretamente ligada apenas ao relacionamento amoroso, tende a desenvolver sintomas inclusive de ansiedade diante das possibilidades de término ou perder a pessoa amada. Assim, objetificar o outro como fonte de nossa felicidade é limitarmo-nos enquanto seres a um tipo de felicidade que não pode ser alcançada ou vivida sozinha. Não confunda confiança e liberdade com distanciamento e perda de interesse.

Relacionamentos que possuem grande durabilidade ou que duram a vida inteira estão cercados de pilares que garantem a harmonia da relação. Um namoro ou casamento saudável é resguardado pelo senso de liberdade, autonomia e confiança que existe entre as partes. Em alguns casos, experiências negativas passadas podem colaborar para essa forma de estarmos dentro da relação, desprovidos de confiança e com necessidade de assegurar de que está tudo certo, de que estamos num relacionamento seguro. Entretanto, tanto neste como no outro caso, a melhor certeza que possuímos de que uma relação vai bem é vermos ambas as partes se desenvolvendo enquanto indivíduos e enquanto casal. Sem autonomia e confiança é impossível construir aquilo que chamamos de “felizes para sempre”, ainda lembrando que uma parceria onde tudo dá certo é fantasiosa e existe apenas no imaginário da figura de “príncipe encantado” e da “donzela”.

Sim, o mundo muitas vezes pode ser entendido como um lugar perigoso, mas cabe a nós escolhermos entre nos privarmos dele ou nos fortalecermos para caminhar preparados sem abrir mão do que existe de positivo nele. Não podemos confundir nossa relação romântica com a nossa relação com o mundo, com aquilo que somos. Da mesma forma, precisamos aceitar e estimular que nosso parceiro(a) consiga ser feliz nas outras áreas de sua vida. A parceria é fundamental e pode ser um porto seguro e de retorno onde nosso amado(a) volte e se sinta revigorado pelo carinho e incentivo que recebe. Busque a manutenção de seu relacionamento sempre, cuide aprendendo a enxergar ele como ele é e jamais tenha medo de crescerem juntos.

Me. Matheus Rego Silveira

Matheus Rego Silveira é formado em psicologia pela UniFACEF - Centro Universitário Municipal de Franca e Mestre em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela USP - Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Trabalha em Psicologia Social, onde desenvolve estudos e pesquisas-intervenções com crianças vítimas de violência ou em situação de risco e vulnerabilidade; e Psicologia Clínica na abordagem Fenomenológica Existencial.

Um comentário em “Tão um do outro

  • 12/03/2019 em 18:44
    Permalink

    Relacionamentos devem trazer benefícios para todos os envolvidos respeitando a individualidade de cada um. Só assim fazem sentido💖

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *