Mas Nós Temos uma História…

Tornar o outro aquilo que amamos nem sempre é tarefa fácil, leva tempo e dedicação que sai de dentro da gente em formato de escolha. Nós não conseguimos viver uma história por vez, vivemos todas elas juntas e bagunçadas, brincando com nossas possibilidades de destino uma a uma. Certas vezes riscamos elas, como fósforos e assistimos elas queimando devagar e enquanto queimam nos sentimos abraçados. É novidade!! Toda promessa de futuro é na esperança, forma de nos sentirmos contemplados. Assistimos ela arder, queimar até que aos poucos deixa de ser opção. “Esperança não cheira assim”, alguns diriam. Assim abandonamos aquilo, deixamos cair ao chão as cinzas daquilo que foi, e realmente foi…enquanto durou.

Acendemos um novo fosforo. “Esse é o último, tem que dar certo, tem que durar”. A gente briga até que com o tempo entendemos que aquele fogo não nos consegue aquecer. “Corre, apaga logo antes que queime os dedos, não vê que o fogo já está perto demais?!” Então a gente apaga, antes que queime, ou só consegue deixar que apague quando o ardor finalmente nos toca, nos fere e grita que todo esse tempo estivemos agarrados aquilo que nos causa dor.

Nem tudo que nos causa dor merece ser tratado como apenas uma ferida. Se dói é porque algo de errado aconteceu ali, e será que você permitiu?

“Grita baixinho, porque se não queima mais! ”

“Sufoca o choro! Já sei, corre e acende um novo. ”

“Esse vai dar certo. ”

“Faz diferente, da última vez foi culpa sua…na verdade, sempre foi culpa sua”.

“A gente tem uma história e eu renuncio a minha felicidade, mas não a nossa história”.

É tão cruel fim de relacionamento, não é mesmo? E como se não bastasse ter que seguir, pior ainda é quando arrastamos essa responsabilidade de termos que terminar para nós e ficamos presos ao medo de estarmos fazendo a escolha certa ou não. Abandonar aquilo que um dia amamos, que foi tão importante e preencheu nossos vazios emocionais, significa ter que encarar a ausência de tudo isso. É lidar com um luto em forma, muitas vezes, de culpa, de arrependimento. Somos arremessados à um grau de angustia incrivelmente insuportável e que a melhor forma de lidar com ela é…tendo esperança. Olha ela ai de novo.

“Corre, acende mais um fósforo e deixa queimar”, “Mas eu já sei que queima, por que faria isso? ” “Porque é o único caminho que existe para se manter junto da pessoa que ama, se queimando e deixando arder a dor de quem prefere ser queimado a seguir em frente. ”

Sei o que está pensando: “calma…é certo que o dia que a dor de agarrar for maior que o privilégio de amar e ser amado, a pessoa solta”. Será? Melhor ainda, será que precisamos aguardar a dor ser maior? Que a história que possuímos com o outro tem muito mais valor que a nossa história própria, de como chegamos até aqui e das muitas outras que poderíamos viver se não estivéssemos queimados, será?

Isso é uma lei: o outro sempre reflete algo que já existe dentro da gente, ou seja, nós atraímos as pessoas através de nossa essência emanada. Nossos relacionamentos dizem mais sobre a forma de nos relacionarmos do que sobre a outra parte da relação propriamente dita. Um amor verdadeiro precisa ser também uma amizade, não queima e nem dilacera nosso coração consciente de que logo haverá uma nova oportunidade, uma nova esperança.

O fogo da paixão é tempero, não uma forma de nos castigarmos sempre que falharmos. Relacionamentos são cheio de falhas, mas se o casal não tem maturidade ou o vínculo não é saudável o suficiente para amadurecerem através dela, talvez seja hora se seguir. É momento de colocarmos com delicadeza a história e vinculo no passado e entender que estamos sempre caminhando na vida. Não precisamos aceitar a infelicidade como uma condição daquilo que amamos. Se estamos nos doando para alimentar aquilo que nos faz mal, precisamos nos conscientizar de que de uma forma ou de outra estamos nos castigando, punindo, ou mesmo que possuímos uma distorção errada de que relacionamento amoro é isso.

Viveremos muitas histórias durante nossa jornada, disso é certo. Não podemos nos aprisionar nas que nos fazem mal, em relacionamentos que pedem nossa doação e não há retorno, não há carinho. Precisamos trazer a esperança como sendo algo nosso, algo que nasce e termina na gente diante das coisas que vivemos. Nos agarrarmos a pequenas doses de felicidade e aceitarmos a angustia como padrão em nossas vidas é sintoma de que algo está errado e precisamos olhar para isso, que nossa autoestima está baixa, nossos medos falando mais alto que nossa força. Precisamos rever aquilo que somos, sentimos, ter clareza naquilo que escolhemos e aceitamos.

Dizem que o verdadeiro amor acontece apenas depois de diversas decepções. Isso acontece porque o entendimento daquilo que somos e o valor que temos chega só depois de muitas escolhas impensadas, de relacionamentos abusivos vividos, de insistirmos naquilo que nos faz mal na esperança de que um dia aquilo “se concerte” e finalmente nos faça feliz. No fundo, todos queremos relações pautadas no respeito, carinho e reciprocidade; coisas não tão difíceis de serem alcançadas se fizermos as escolhas certas.

Quebrar vínculos afetivos com pessoas que nos fazem mal é entendido como um crescimento pessoal, é amor-próprio e sinal que estamos com a autoestima bem trabalhada em nós. É sinal de liberação emocional, um valor precioso que possuímos necessidade de desenvolver durante a vida para atendermos nossas necessidades de crescer, progredir, sermos felizes e sem deixar ninguém nos limitar.

Me. Matheus Rego Silveira

Matheus Rego Silveira é formado em psicologia pela UniFACEF - Centro Universitário Municipal de Franca e Mestre em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela USP - Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Trabalha em Psicologia Social, onde desenvolve estudos e pesquisas-intervenções com crianças vítimas de violência ou em situação de risco e vulnerabilidade; e Psicologia Clínica na abordagem Fenomenológica Existencial.

Um comentário em “Mas Nós Temos uma História…

  • 12/03/2019 em 18:48
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    Da mesma forma que vivemos o luto da morte vivemos a tristeza da separação…mas tudo passa😉

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