Atualize sua existência

Já não caibo mais nas escolhas que fiz. Vivi tão intensamente minha vontade de viver e me entregar para o que idealizei como certo para mim, que hoje me vejo forçado a reconhecer que muito não passou de estrada. Hoje sei ela de cor, pedaço por pedaço, onde há sombra e há sol, onde posso parar para abastecer ou passar bem devagarinho em busca de apreciar as paisagens e mirantes. Sei onde não quero demorar, que tenho pressa. Tem estradas que só conhecemos quando nos perdemos, algumas nos fazem dar voltas e voltas, outras andamos muito tempo em busca de uma placa que sinaliza retorno. Tem destinos que não queremos chegar e alguns que ficamos como crianças dentro de um carro perguntando: já chegou?

Quando a gente insiste nas mesmas viagens não podemos questionar o porquê nos deparamos sempre com as mesmas paisagens. Ser surpreendido pela vida é raridade, na maior parte das vezes a gente precisa cansar o paladar e seguir em frente. Foi só reconhecendo que as estradas têm o poder de desgastar a gente que pude entender o a importante de nos situarmos perante a vida, fazer escolhas pensadas em nós e estarmos atentos quando já dá para perceber que aquele caminho não nos levara a nada.

Relacionamentos amorosos, amizades, parcerias profissionais, investimentos emocionais, financeiros e de carreira. Escolhemos e trilhamos caminhos todos os dias; e nessa de percorrer estradas acabamos andando tantas milhas que nos afeiçoamos a sensação de estarmos perdidos. Nessas horas, somos vistos guiados pela fé de que em algum momento algo de novo acontecerá e fará tudo valer a pena. Vamos testando a lei do retorno incisivamente, enquanto a sabedoria de entender que aquilo não á para gente, bastaria e acabaria com nossa aflição.

A ideia de que as certezas são o que move a gente, de que precisamos sempre da estabilidade é errada. Só somos livres quando aprendemos a dominar o voo, quando entendemos que o chão é apenas uma metáfora do que realmente é o mundo, e nada mais. Voar não significa perder a noção de destino, pelo contrário, é ter responsabilidade no bater as asas, é mover as peças certas ou ao menos ter destreza de que em algum momento nos damos conta que sentimos falta de algo.

A vida não é feita de acertos e erros, mas de vivências e sentimentos que habitam em nós. Certos disso, precisamos saber a hora de seguir. Saber quando ciclos precisam ser encerrados, simplesmente porque mudamos e eles passaram a nos fazer mal: amizades, parcerias, relacionamentos, trabalhos. A gente vive e percebe que o humano é matéria fluida, que se transforma à medida que acontece no mundo, que dialoga com o tempo.

Seguir, frente àquilo que nos faz mal, pode ser um dos maiores gestos de respeito com nossa história através da maturidade que adquirimos. Seja porque cansamos ou porque aquela relação não nos contempla mais. São desfechos cabalísticos ditados pela responsabilidade que temos em ser inteiros, vivermos verdades e nos sentirmos satisfeitos com nossas próprias faltas. Para poder seguir precisamos primeiramente dialogar com nossa falta, com aquilo que percebemos como ausente. Transformar ausência em desejo e, então, em novas perspectivas e caminhos. Cada começo de uma nova etapa está ligado ao fim da anterior. Um fim é só outro começo. Dar novos significados não é fácil e parte da dificuldade está em nos esforçamos para não cometermos o erro de fazermos as mesmas escolhas do passado.

Como podemos esperar pelo novo se não damos espaço para ele? Precisamos deixar espaço livre para que o novo nos invada. Dizem que novos começos chegam disfarçados de finais dolorosos, mas não necessariamente precisamos permitir ser assim. Se nos sentimos aprisionados a uma espécie de caminho, temos formas de fazer pequenos contornos e aos poucos ir mudando a direção. Tenha cuidado para não tratar uma etapa de sua vida como um cárcere ou verdadeiro purgatório existencial. Lembre que quem narra sua história é você, através de suas percepções e fortalecimento emocional para embarcar em uma nova aventura.

É certo que haverão novos desafios, mas podemos nos preparar para eles. Devemos aceitar que a vida é composta de ciclos e que cada etapa tem o seu momento. Cada vez que algo se vai, deixa lugar para aquilo que continua” (Jorge Bucay). É difícil, mas temos o dever de questionar e estranhar aquilo que a vida faz de nós, reconhecer aquilo que nos contentamos por medo, mesmo sabendo o quanto nos faz mal. É dialogando com nosso eu e entendendo aquilo que já não nos serve mais, que não traz mas sentindo, mesmo que um dia trouxe, que atualizamos nossa identidade, que mudamos de marcha e partimos para novos caminhos.

Me. Matheus Rego Silveira

Matheus Rego Silveira é formado em psicologia pela UniFACEF - Centro Universitário Municipal de Franca e Mestre em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela USP - Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Trabalha em Psicologia Social, onde desenvolve estudos e pesquisas-intervenções com crianças vítimas de violência ou em situação de risco e vulnerabilidade; e Psicologia Clínica na abordagem Fenomenológica Existencial.

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