O bom vencedor

Toda criança, adolescente ou adulto tem mania de imaginar uma vida diferente da que vive. É algo inerente à fase da vida em que estamos, ao gênero, cor de pele ou mesmo a quem oramos. Simplesmente as vezes a vida não é o que esperamos e a realidade não é tão convidativa como nossa imaginação. Ganhar na Mega Sena, tornar-se um artista ou alguém de sucesso, finalmente comprar a casa própria. Sonhos, para onde eles nos levam?

Sonhar é tarefa fácil, aqueles que imaginam um destino diferente alimentam seus desejos e caminhos alternativos que os levem finalmente ao “final do arco-íris” ou à “lâmpada mágica”. Temos tantos desejos guardados, criados apenas dentro da gente que em alguns é até difícil encará-los. Ficamos apenas sentindo em nosso paladar aquela sensação nostálgica de onde não conseguimos chegar. Temos fotos guardadas em nossa memória de momentos que não chegaram a acontecer, junto com cheiros e outras lembranças que criamos para adoçar aquilo que, cruelmente, a vida é.

Quase sempre nossos sonhos estão ligados a uma felicidade que não chegou, mas é muito aguardada. Existe um dia, um momento, um presente, um alguém que esperamos nos entregar para então, finalmente, sermos felizes. Felicidade configurada para ser levíssima, mas que só existe quando se aprende a voar. Então a vida se torna isso: uma constante mudança de pessoas voando, perambulando entre sonhos e a realidade. Voamos longe, sentindo o vento tocando nossa pele enquanto escolhemos arriscar nossa fé pelo que não chegou, pelo que é promessa de felicidade.

Existir é uma das tarefas mais difíceis que nos poderiam ser dadas. Existir significa confrontar a história que nos é possível viver, dialogar com nossos desejos escancarados e mais secretos, querer se apaixonar e depois se perguntar onde estávamos com a cabeça quando escolhemos nos permitir uma nova relação. Passar pela vida é moleza, difícil mesmo é se permitir ser personagem principal e bancar as desilusões que vivem chegando.

Desafios fazem parte de estarmos aqui. Não só possuem uma tarefa primordial de nos ensinar como colocamos valor nas coisas e acontecimentos, como também nos impulsionam para sermos versões melhores nossas. Saber lidar com as dificuldades da vida é, de longe, a habilidade mais importante que podemos desenvolver enquanto seres humanos. Nesse processo, um grande aliado é nossa Inteligência Emocional; é fundamental ter resiliência para não entrar em desespero diante dos imprevistos.

Ser resiliente significa ter a capacidade de absorver os impactos que nos são apresentados no decorrer da vida, nos permitindo através do contato com nossos próprios erros, amadurecer e lidar de maneira inteligente com nossas emoções. Assim uma das grandes virtudes que devemos buscar é o autocontrole perante estes desafios, entendendo que não se trata de ganhar ou perder, só somos vencedores a partir do momento em que aprendemos a lição por trás da vivencia.

Diante das dificuldades algumas pessoas são tomadas pelo medo, se acuam e sentem não possuir o que é necessário para que seja feito o enfrentamento em questão. A proporção desse medo e como ele irá nos afetar é determinante para dizermos se é apenas o momento de seguirmos em frente ou se estamos abrindo mão do enfrentamento devido as nossas inseguranças. Bons perdedores sabem a hora de ceder, desistir, parar, criar novos projetos e entender finais de relacionamentos. Hora habitam em nós, afinal também precisamos saber quando algo não vai bem ou precisa parar. Assim, as vezes ser um bom perdedor pode significar sair ganhando. A grande questão é se essas são características que fazem parte de nós ou se definem nosso comportamento através de nossa personalidade e autoestima.

Com medo ou não, precisamos ter coragem e humildade ao enfrentarmos uma adversidade, essas são as características principais de um bom vencedor; não se trata dele enquanto ser sendo colocado em prova, mas parte de sua existência sendo resinificada a partir de um desafio que o faz sentir inseguro e insuficiente. As dificuldades e misérias da vida existem para dialogar com nossa finitude, com nossa pequenez perante o todo.

A vida pode ser encantadora e ao mesmo tempo desafiadora. Pode mostrar flores enquanto o tempo fecha sobre nós. A grande lição é que nem tudo se trata de esforços da nossa parte, mas sim de aceitação e preparo perante estes desafios. Acalentar nossa alma enquanto ela se prepara para encarar seus demônios é um gesto de humildade com nosso próprio ser. Há quem aponte merecimento nas dores que se vive na vida, eu acredito que não. Existem tantos corações repletos de bondade, mas que ainda assim a vida vem tentando lapidar. Pouco sobra depois de algumas lapidações, mas muito é entregue: sabedoria de vida.

Quem já esteve aqui, não viveu para contar. Apenas passou, levou consigo a bagagem acumulada ou escreveu em livros e, ainda assim: muito só se aprende vivenciando. Só conseguimos realmente significar a dor da perda e a alegria da chegada quando vivemos ela. Podemos narrar nossas experiências como se fossem lugares que algum dia havíamos visitado. Esses cômodos e paisagens que vão se acumulando em formato de cicatrizes ou mesmo marcas de expressão de quem deu boas gargalhadas…de quem se apaixonou perdidamente, de quem viu o filho abrir os olhos pela primeira vez. Existe doçura na vida, disso o bom vencedor sabe…por isso ele luta. Por isso…

Me. Matheus Rego Silveira

Matheus Rego Silveira é formado em psicologia pela UniFACEF - Centro Universitário Municipal de Franca e Mestre em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela USP - Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Trabalha em Psicologia Social, onde desenvolve estudos e pesquisas-intervenções com crianças vítimas de violência ou em situação de risco e vulnerabilidade; e Psicologia Clínica na abordagem Fenomenológica Existencial.

Um comentário em “O bom vencedor

  • 27/02/2019 em 07:48
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    Sonho é um combustivel para seguir em frente e ser um vencedor💖

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