Despedidas

Certa vez, ainda criança, em um dos meus aniversários ganhei um boné. Dentre todos os presentes que eu havia ganhado, ele era o que mais havia me chamado a atenção. Estava na moda usar boné, quem o usava era descolado e todos os meninos da rua já possuíam um. Eu não via a hora de colocá-lo e ir brincar com os outros garotos. Na época, todos nos reuníamos e andávamos de bicicleta, as vezes brincávamos de polícia e ladrão ou qualquer outra coisa que fosse cabível a partir de nossa imaginação.

Logo pela manhã do outro dia, um sábado, fomos eu e meu primo andar de bicicleta. Mais que depressa coloquei meu boné, o meu presente preferido que de agora em diante faria parte de minha identidade. Assim, andamos pela cidade. Fizemos as mesmas estradas, mas eu estava diferente. De repente aquela peça era o que me faltava para poder ser eu mesmo, me sentia mais autêntico perante as outras crianças. Cada uma delas possuía seu boné e nas tardes ensolaradas você podia ver todos na rua com as respectivas cabeças em cores diferentes. Naquela idade não importava tanto a marca, mas sim pertencer.

Voltando para casa eis que percebo um rapaz mais velho, devia ter seus dezessete ou dezoito anos. Ele veio em minha direção, eu não me recordava dele. Nunca havia o visto na nossa rua e não me lembrava também de nenhuma outra criança ser amiga ou parente dele. Ele chegou como um reflexo, veio na nossa direção e quando jurei que fosse dizer-nos algo, apenas levou meu boné.

É, ele levou. Era um boné simples, eu me recordo. Era especial para mim por ser o primeiro, por ter chegado em minha vida justamente em meu aniversário. Quando me dei conta do que havia perdido, dos significados que eu havia colocado e do pouco tempo que eles duraram em minha vida… fiquei de coração partido.

Hoje, não me lembro mais das cores do boné, mas do rosto de quem o levou. Lembro do quanto ele era especial para criança que fui e, por alguma razão sabia que comprar outro não resolveria. Não se tratava mais dele, mas sim da forma como o tiraram de mim.

Percebo que os dias que seguiram a partir do ocorrido me fizeram refletir no que mais poderiam levar que era meu. Pouco tempo depois eu desenvolvi um medo terrível da morte e comecei a questionar as pessoas ao meu redor sobre a vida. Eu estava indignado. Existia violência, a vida poderia ser violenta comigo! Quantas vezes a vida não foi e não é?

Sartre, considerado o pai do Humanismo, certa vez mencionou que estamos condenados a sermos livres. Ele não se referia necessariamente a liberdade de fazermos o que quisermos, mas de podermos escolher e principalmente arcarmos com aquilo que escolhemos perante o alcance de nossas escolhas. A vida nos permite muitas opções e desejos, da mesma forma que nos pede em troca que arquemos com os resultados e desdobramentos das escolhas que fazemos.

No momento em que fui roubado, já não tinha mais nove anos. Tinha perdido muitas coisas junto com aquele boné, e em troca, o responsável pelo furto havia me entregado duas coisas:  uma angústia e uma responsabilidade sob essa angústia. Ele havia me ensinado algo sobre a vida que meus pais ainda não haviam mencionado, mas que por eu ter experimentado agora tinha que ser coerente perante aquilo.

Vejam só… e não é que meu presente não era mais o boné, mas sim a perda de algo tão querido?! Assim é a vida. Nunca sabemos quando e o que nos será tirado. Torcemos para que não sejam pessoas ou nossa saúde, mas não há certezas quanto a isso: há apenas responsabilidade e o tempo.

Existe um tempo que nos foi dado para podermos nos conhecer e conectar com as coisas do mundo, nos apaixonar uns pelos outros, nos magoar, perdoar…sorrir…

Também nos foi dado tempo para nos despedirmos de coisas simples, momentos, amores e deixar o mesmo tempo tirar algo que nos foi dado pela vida dói. Perdemos tantas coisas ao decorrer dos anos que com o passar deles nos tornamos seguros de que em algum momento haverá uma nova despedida. Um novo adeus.

Eu sei o que está pensando, a finitude assusta. Ficamos apavorados por essa condição de “a qualquer momento alguém pode ir”. Não, não podemos deixar essa peculiaridade existencial nos afastar dos bons momentos. Principalmente: não podemos deixar esse medo nos tornar cegos perante aquilo que a vida é: uma oportunidade.

Sartre estava certo, estamos condenados a ter que lidar com nossas escolhas perante tudo o que acontece dentro e fora da gente; e é justamente por isso que devemos escolher sabiamente como conduzir nossa responsabilidade com nosso próprio ser e o tempo que temos.

Não me faz mais falta o boné, na verdade pouco tempo depois ele já não fazia. Aos nove anos, eu estava completamente consciente do que realmente faria falta e desde então tudo jamais fez.

Hoje vivo uma gratidão misturada com saudade de tudo aquilo que já foi meu, que fez parte da minha vida e, de certa forma, faz parte de mim. Foi assim, através da gratidão à oportunidade de existir do lado de algumas pessoas, passar por lugares que já estive, escutar e ver coisas simples, mas que adoçam a vida. Foram as escolhas que fiz desde que perdi aquele boné. Depois perdi muitas coisas mais, mas só assim entendi o valor que um presente pode ter para o ser humano.

Me. Matheus Rego Silveira

Matheus Rego Silveira é formado em psicologia pela UniFACEF - Centro Universitário Municipal de Franca e Mestre em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela USP - Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Trabalha em Psicologia Social, onde desenvolve estudos e pesquisas-intervenções com crianças vítimas de violência ou em situação de risco e vulnerabilidade; e Psicologia Clínica na abordagem Fenomenológica Existencial.

Um comentário em “Despedidas

  • 22/02/2019 em 22:33
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    Belíssima reflexão…o boné foi praticamente um rito de passagem.👏👏👏

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