Com carinho, o mundo do outro

Uma das maiores lições que se aprende durante a formação em psicologia é o olhar empático diante da vulnerabilidade humana. É importante que o profissional de psicologia chegue ao mercado preparado e aberto para bem receber, acolher e trabalhar a angustia existencial sem deixar que a pessoa que busca ou precisa de ajuda se sinta julgada ou mal compreendida. Em minha carreira, em especial, sempre busquei criar um espaço acolhedor e deixar claro que minha passagem na vida daquela pessoa jamais seria pautada no julgamento, mas sim de caminhar junto a ela no que fosse preciso, sem maiores preocupações com o que seria belo ou feio, certo ou errado.

Peço licença, mas para trabalhar o assunto deste texto, escolho em algumas partes dele trazer uma percepção um pouco mais pessoal e próxima a você leitor. Decidi escrever por este caminho por muito saber da importância desse assunto e para poder contar um pouco sobre aquilo que somos e podemos ser uns para os outros. Somos humanos, diferenciados por nossa genética e personalidade, mas próximos por todas as outras muitas condições existenciais. Além disso, todos nós somos resguardados, ou pelo menos deveríamos, por direitos incondicionais.

Decidi abrir esse texto dizendo um pouco sobre uma das mais fortes questões éticas da minha profissão, e creio que de todas as outras carreiras da área da saúde, pois acredito que a melhor forma de falarmos sobre invisibilidade social e preconceito seja dialogando com nossa forma de caminhar pelo mundo, trajetos e escolhas que fazemos no dia a dia, imperceptíveis muitas vezes por já estarem tão diluídas em nossa fala e olhar, na atenção que damos e deixamos que determinados assuntos nos toquem.

Existe uma responsabilidade que não nos é dada, até mesmo pela dificuldade que é nos apropriarmos dela e do quão forte nossa presença é e pode ser na vida de uma pessoa.

Quando arremessamos uma pedra na agua, por exemplo, enxergamos pequenas ondas se formando onde ela caiu. Acontece que o encontro da pedra com a agua gera perturbações. Chamadas de ondas, essas perturbações podem ser de tamanhos diferentes dependendo do tamanho e velocidade com que a pedra atingiu a agua. Se estamos na beirada de um lago, talvez só saibamos da onda, mas não do que está por trás dela. O mesmo acontece na vida, não somos diferentes das ondas. Somos resultado de uma cultura que nos atinge, ao mesmo tempo que como as ondas propagamos o encontro dessa cultura com o nosso ser.

Quando era mais novo, muito antes de imaginar fazer psicologia, eu gostava de ficar sentado em lugares movimentados assistindo pessoas passarem. Observava atento o comportamento delas e imaginando de onde vinham, para onde estavam indo, quem as aguardava em casa e o que as faziam felizes. Eu tentava me conectar de alguma forma com a história delas, de forma que pudesse conhecer essa mesma história através de seus comportamentos hoje. Claramente, essa leitura não pode ser feita através de uma única observação, mas ainda jovem eu sabia que tocávamos uns aos outros com nossas bagagens, culturas, tristezas e doçuras. Eu já conseguia enxergar o papel que poderíamos ter uns na vida dos outros e percebi que mesmo sem querer tínhamos uma responsabilidade com aquilo que o mundo é e aquilo que somos.

O ser humano é construído a partir da interação dele com o mundo e do mundo com ele. Quando nascemos chegamos aqui com necessidade de sobrevivência, e é em cima dessa necessidade que somos cuidados por nossos pais e familiares até que um dia a necessidade de sobreviver ao mundo como ele é nos leva à escola. Na escola somos instigados a crescer desenvolvendo nossos potenciais completos. Somos desafiados e aos poucos a vida também vai acontecendo e construímos contato com coisas mais profundas como perdas, arrependimentos, medos e saudades.

Nossas emoções são resultado do diálogo e relação entre nosso mundo interno e externo, sendo que esses mundos não são independentes. Eles se completam de forma que o resultado de um entrelaça no outro nos fazendo ser eterno resultado e ao mesmo parte de um processo muito maior. Então posso dizer que hoje não sou apenas minha pessoa, mas minha pessoa a partir do contato com muitas outras. Sou exemplo vivo daquilo que a vida me ensinou e me marcou, das minhas prioridades e desejos. Sou resultado dos livros que li, dos encontros que tive com pessoas incríveis e com as pessoas que me ensinaram através da angústia aquilo que eu não gostaria de ser ou fazer.

Não você não poderá conhecer uma pessoa a não ser que realmente permita estar com ela de forma a respeitar de onde ela veio, ou seja, sua história. Ainda mais profundo que isso é: não conseguirá ajudar alguém caso julgue e hierarquize suas escolhas como sendo melhores que as dela.

A dor humana pode ser física ou psicológica. Na dor física tem o objetivo de avisar que existe algo de errado em um determinado local, nos impedindo de machucar ainda mais aquela região. Já na dor psicológica sofremos por relembrar e reviver momentos traumáticos. Algumas dores psicológicas são muito duradouras, difíceis de serem cuidadas. Acredito que ainda que as dores possam quase sempre ser curadas da mesma forma (com devida atenção e cuidado), acabamos por acumular mais dores não curadas psicológicas do que físicas durante a vida. Assim, essas dores vão também nos moldando e moldando nosso comportamento.

Tudo isso nos leva a pensar em como não abrimos espaço para as pessoas poderem ser quem elas realmente são sem medo de serem julgadas ou abandonadas por não corresponderem estereótipos culturais vigentes. Nessa agressividade, muitas vezes disfarçada ou mesmo silenciada, convivemos uns com os outros. Não é porque uma pessoa é diferente do que acreditamos ser a melhor forma de passarmos pelo mundo que isso justifica tratarmos ela mal ou negligenciar ajuda. A invisibilidade social é um conceito aplicado a seres socialmente invisíveis, seja pela indiferença ou pelo preconceito, e existem vários fatores que podem contribuir para que ela ocorra: sociais, culturais, econômicos e estéticos.

A vida nem sempre é fácil e é por isso que nossa história de vida vai conversar através da gente a partir de sensações corporais, sentimentos, emoções, pensamentos, tendências comportamentais, dentre outras possibilidades. É por isso que para tocar a angústia humana o primeiro princípio é a humildade nas palavras e atitudes. Precisamos aceitar a condição da dor existencial e encontrar a melhor forma de nos aproximarmos daquilo que gera sofrimento e precisa ser curado, e acredite: cada um tem uma forma de narrar aquilo que dói. É preciso estarmos descalços e treinar nosso “olho no olho”, ter carinho à medida que nos aproximamos das feridas da alma e cuidar da nossa forma de cuidar primeiramente. Se a cada olhar torto o mundo ganhasse um olhar de carinho, ele com certeza seria melhor.

Me. Matheus Rego Silveira

Matheus Rego Silveira é formado em psicologia pela UniFACEF - Centro Universitário Municipal de Franca e Mestre em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela USP - Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Trabalha em Psicologia Social, onde desenvolve estudos e pesquisas-intervenções com crianças vítimas de violência ou em situação de risco e vulnerabilidade; e Psicologia Clínica na abordagem Fenomenológica Existencial.

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