Chegamos ao Fim

Nessa altura do campeonato, certamente você já segurou o coração de um amigo que acabara de terminar um relacionamento. Seja por enxugar as lagrimas ou confortar as mãos, ver uma história de amor chegar ao fim é um dos grandes desafios para quem sabe o gosto do amar.

Quando a gente ama sabores mudam. A gente não sente mais a realidade no concreto. As costas que antes chamavam a atenção por doer, agora são marcadas dolorosamente por lembranças de alegria como uma viagem de carro demorada ao lado da “pessoa da sua vida”. Quando a gente se apaixona de verdade, viramos aventureiros sem destino, damos birra como uma criança que quer tudo para esse instante, com a diferença que, já adultos, quase tudo que nos cabe conseguimos realizar no agora.

Mas chegar ao fim de uma história vivida é o culminar de um emaranhado de desencontros que acaba terminando em nó na garganta. É não reconhecer mais o amado ou a amada como o presente que te faz sorrir, mas sim um mal-entendido entre você e a vida. A gente reflete na história vivida, nas escolhas que foram feitas, mas como dizem todas as avós que já amaram: não vale a pena chorar pelo leite que foi derramado. “Passou meu filho”. É….passou.

Experiência desumana ter que aprender a desamar. Quase que uma cirurgia repleta de complicações assim que recebemos o laudo: chegou ao fim, precisamos do fim, já não dá mais…

São tantas histórias que seguem esse destino que, como qualquer bom amigo, aceitamos que hoje acolhemos, mas amanhã poderá ser nós quem estará pedindo colo. Talvez eu me desencontre e quando acorde descubro que estou caído, olhando as nuvens passando e pensando no que já vivi e no que queria viver…como todos amantes fizeram desde o início dos tempos.

Dói terminar um amor, porque a gente precisa terminar um futuro que numa brincadeira de sonhar fomos casais de cartomantes com futuros concretos, certos daquilo que chegaria. Tínhamos até os nomes dos filhos, acredita?! E nossa casa? Aquela que teria o quadro dele(a) e a minha poltrona, teríamos mais dois cachorros, ou talvez nenhum se a alergia dele(a) não passasse.

O parceiro vai embora, mas os sonhos ficam. Nosso mundo interno fica uma bagunça, com sonhos esparramados para tudo quanto é lado. Assim que a gente começa a andar, tropeçamos. Alguns choram como uma criança que ao cair rala o joelho. Outros engolem o choro como um remédio seguido de uma dose de orgulho…ou talvez respeito…amor próprio…já não sei mais.

Tem quem saia correndo para as baladas, terminando de bagunçar tudo e só deixam para arrumar a baderna interna quando vão receber visita. Tem quem demore séculos para pôr tudo no lugar, olham o interno inteiro, estante por estante, confrontam tudo quanto é tipo de poeira, farelo, grão.  Tem quem apenas respire, medite enquanto tenta não brigar com Deus ou qualquer sentido que dê para vida. Tem quem não dê sentido algum e apenas aceite a má sorte. Qual deles está certo? Qual deles está errado? Faz diferença?

Claro que faz! Como se segue em frente sem pôr as coisas nos lugares certos? Tem gente que vive esbarrando em lembrança, em remorso e nos fantásticos “e se…e se…e se…” isso só tem fim para quem faz uma faxina emocional completa, não que isso exista, afinal, toda experiência transforma a gente, ainda assim, colocar as coisas em seus devidos lugares é um gesto de reconhecimento de que seguir merece carinho.

Alguns momentos são marcantes na nossa história. Fim de um relacionamento certamente é um deles. É um momento de calma, de aquietar o coração e se despedir de tudo isso e mais um pouco que morou na gente por tanto tempo. É o fim de um ciclo que, se nos permitirmos pensar, ensinou muita coisa sobre quem somos e o que buscamos. A gente evolui um pouquinho mais em cada encontro real que temos na vida.  O começo disso tudo é entendendo que a continuidade não está mais no outro, mas em nós. Temos a chance e a responsabilidade de escolher diferente, de criar um novo destino e sonhar pela gente.

Falando em sonhos, nem todos dependem de sermos um casal. Não é porque o sabor é diferente que é ruim. Na verdade, o sabor real é o que te conecta com sua história, com sua verdade. Acolha isso e tente brincar de ser você novamente. Comece leve, sem muitas preocupações. Depois, com o tempo, talvez você perceba que nunca se tratou de um faz de conta, era sobre você…todo esse tempo…era sobre você e aquilo que pode ser sozinho ou com alguém. A vida é isso, não é mesmo?

Me. Matheus Rego Silveira

Matheus Rego Silveira é formado em psicologia pela UniFACEF - Centro Universitário Municipal de Franca e Mestre em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela USP - Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Trabalha em Psicologia Social, onde desenvolve estudos e pesquisas-intervenções com crianças vítimas de violência ou em situação de risco e vulnerabilidade; e Psicologia Clínica na abordagem Fenomenológica Existencial.

2 comentários em “Chegamos ao Fim

  • 22/02/2019 em 19:12
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    Amei seu artigo.Estou sofrendo muito c o término de um relacionamento de 4 anos.Ainda não consigo aceitar.Mas a leitura de artigos como esse vão me ajudar.Obrigada!

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  • 24/02/2019 em 07:44
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    Tudo que precisava ler! Estou divorciando não por escolha minha, e tá doendo demais! Obrigada

    Resposta

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