Deu Match: A supervalorização do “eu”

O mundo está em constante transformação, e com ele a forma de nos relacionarmos também. Muito disso devemos a tecnologia que evolui cotidianamente, rompendo barreiras e nos permitindo estar mais próximos uns dos outros. Infelizmente, somado as inovações positivas, vieram também algumas dificuldades como alguns bloqueios sociais que envolvem a baixa tolerância a frustração e a necessidade de aprovação da imagem virtual que construímos.

Através de redes sociais como Whatsapp, Facebook e Instagram construíram-se novas formas de nos relacionarmos. Nelas, por mais que não haja a necessidade de contato físico, o processo de comunicação tornou-se bastante intenso. Além disso, as pessoas passaram a se preocupar mais em alimentar a ideia de como são vistas socialmente.  Atualmente nos relacionamos criando conceitos sobre o que somos para o outro e nos prendemos a reforçar uma imagem que com o tempo pode se tornar um verdadeiro calabouço. Um sinal disso é o fato de que se tornou cada vez mais comum namoros, amizades, encontros virtuais, que duram por bastante tempo até que as pessoas decidam se encontrar pessoalmente.

A autopromoção é o que mais se vê nas redes sociais atualmente. Antigamente as pessoas tiravam fotos para guardar momentos, hoje na grande maioria das vezes tiramos preocupados em vender uma ilusão daquilo que reforçamos ser. Existem diversos aplicativos que cuidam para que nossa imagem se ajuste aos padrões buscados na internet, sacrificamos nossa autenticidade e nos moldamos mediante aquilo que possa adoçar os olhos dos outros.

Em muitas histórias, o mundo virtual faz o papel de cupido e proporciona o que não seria possível na vida real. Pessoas com timidez, acabam se sentindo menos inseguras para conversar, podendo encontrar assuntos em comum para iniciar um diálogo, dentre outros pontos positivos. Ainda assim, se para algumas pessoas encontrar novos relacionamentos se tornou algo fácil, para outras o mundo online escancarou a efemeridade das relações na atualidade: superficiais e rápidas.

A acessibilidade às redes sociais fez com que conheçamos mais pessoas e construamos relações menos comprometidas. A fantasia e o imaginário são feridos quando se encontram com a realidade. Existe uma preocupação com que “nada amarrote a imagem construída via online”. A realidade pode não ser tão glamorosa quanto a vida virtual e os critérios de escolha de uma amizade ou relacionamento amoroso não são mais ligados ao que tem a ver com quem somos, mas sim quem é mais interessante.

Será que abrimos mão de nossa autonomia de escolha e domesticamos nosso paladar para aquilo que é atrativo aos olhos? O que enxergamos é a preocupação de encontrar no outro os padrões refletidos pelas redes sociais.  Assim, nos objetificamos nas relações. Somos aceitos ou não, descartados ou não. Não buscamos mais corresponder aquilo que somos, mas aquilo que desejamos e os aplicativos nos permitem ser. A consequência disso é a dificuldade das pessoas em “baixarem a guarda” e permitirem que o outro acessem suas essenciais, o que somada as inseguranças e ansiedades que vivenciamos quando começamos a nos relacionar com alguém, pode afetar com facilidade nossa autoestima.

Enquanto as relações online seguem descompromissadas, no mundo real elas precisam de dedicação e aceitação para se consolidarem. Tornar-se único para alguém não é mais algo que pode acontecer naturalmente, pois na primeira dificuldade existem inúmeras outras opções para substituir determinado alguém, afinal, aceitar a parte “chata”, os desencontros, as privações, tudo isso certamente fere o ideal do que somos, merecemos e buscamos.

Ser influencer é meta de muitos brasileiros, mas afinal porque queremos tanto influenciar uns aos outros? Será que a busca é por ser influente ou em ser enxergado? Quase sempre, o caminho nos leva a preocupação de nos encaixarmos, nos adequarmos as hashtags. Se o grupo se comportar com indiferença, o internauta tende a se sentir um fracassado.

Nesse processo enxergamos o homem deixar de lado sua capacidade criadora para tornar-se a “engrenagem de uma máquina”, ressaltando a desigualdade e ostentando valores que outros lutam para desconstruir dia a dia. Queremos nos relacionar com o belo, com a alegria, com a eterna sensação de carpie dien.

A vida virtual promove inúmeras recompensas, porém, não pode se tornar uma fuga para aumentar o distanciamento entre as pessoas na vida real. Para tudo existe um equilíbrio e a dialética entre o mundo real e virtual precisa ser explorada e esclarecida.  Precisamos nos colocar a pensar em como tudo isso pode interferir em nosso ser e em como interagimos uns com os outros. Que a felicidade não esteja mais relacionada a supervalorização do “eu” e a visibilidade não seja maior que a empatia.

Me. Matheus Rego Silveira

Matheus Rego Silveira é formado em psicologia pela UniFACEF - Centro Universitário Municipal de Franca e Mestre em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela USP - Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Trabalha em Psicologia Social, onde desenvolve estudos e pesquisas-intervenções com crianças vítimas de violência ou em situação de risco e vulnerabilidade; e Psicologia Clínica na abordagem Fenomenológica Existencial.

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