Educação Emocional: Por que devemos nos preocupar?

Pais e mães possuem uma função bem distinta na vida de seus filhos. Não apenas são a primeira referência de afeto e proteção, mas será através do olhar que estes possuem e significam a vida que as crianças irão, aos poucos, aprender a significar a realidade. A criança é como uma esponja: absorve informações e reproduz o que vê ao seu redor, e é no dia a dia, no carinho, cuidado e em cada diálogo que seremos intercessores entre aquilo que a criança conhece de novo no mundo. Incentivar as crianças a falar sobre seus sentimentos é uma filosofia que deve ser vivenciada durante toda a trajetória da maternidade e paternidade.

Claro que a tarefa de educar uma criança não é fácil, não existem manuais completos, mas hoje temos sim através da psicologia um discernimento de zelos que podemos tomar em cada faixa etária de nossos pequenos. Sabemos hoje que em cada momento da vida, eles irão se deparar com uma descoberta, ou mesmo biologicamente, estarão mais aptos para desenvolver novos aspectos cognitivos, afinal, o ser humano possui desde criança o momento certo para desenvolver-se e isso dependerá de sua maturidade biológica e estimulação social.

Assim, educamos não apenas para que aprendam, mas para que também possuam qualidade de vida pessoal e em sociedade. Nesse ponto, é importante nos atentarmos para a importância da educação emocional. Um adulto que quando criança foi estimulado a desenvolver sua inteligência emocional possui maiores habilidades de se relacionar, de lidar com frustrações e angústias.

Em meu artigo “Típico de homem:  aquilo que a sociedade espera e perpetua” falo um pouco sobre as interferências do padrão cultural que move pais e mães a educarem seus filhos (meninos) e que aos poucos colabora para a construção de homens imaturos emocionalmente, e com uma tendência de resolverem através da violência situações em que se sentem confrontados.

A criança pode ter muita dificuldade em tentar entender o porquê se sente de tal forma e qual a melhor forma de lidar com aquele sentimento. Sentimentos e sensações que muitas vezes são desprezados por seus responsáveis. Assim, dentro da linguagem e alcance da criança, devemos dedicar tempo para auxilia-las a passarem por esses processos com qualidade e ao mesmo tempo segurança.

Em muitos casos o que presenciamos é uma desconexão na relação da criança e dos pais, o que também não deixa de ser uma característica cultural de nossa sociedade. Afinal, a visão de infância e criança foi um conceito que sofreu muitas transformações nas últimas décadas. Uma ideia disso é saber que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), criado pela Lei 8.069, surgiu em 1990, ou seja, ainda muito recente e isso demonstra onde encontrava-se nossa sociedade na época e para onde o entendimento de “o que é ser criança” tem andado.

Nos últimos anos pais e familiares passaram a se preocuparem mais com o caminho que dão para educação de seus filhos. Por essa razão novas pesquisas surgiram, e a psicologia infantil, juntamente com outras áreas do conhecimento, como pedagogia, neurologia e psiquiatria, avançaram em seus estudos e práticas. Hoje, apesar de fundamentados, sabemos que cuidar da infância significa auxiliar a família como um todo a ressignificar valores que fazem parte da história de vida e constituição de seus membros.

Chegamos ao ponto importante do texto, na verdade um princípio básico para termos qualidade no trabalho da inteligência emocional de nossos filhos: precisamos nos preparar para poder acolher as descobertas e dificuldades de nossos filhos. O olhar atento é o melhor caminho para ajuda-los conhecer as próprias emoções, suas consequências e como lidar com elas. Atenciosos, os pais e familiares devem ajudar a criança a rotular e dar nome para aquilo que sente. Assim, tanto emoções positivas ou negativas se tornam mais fáceis de serem localizadas e verbalizadas.

Esse processo permeia inclusive o autoconhecimento da criança, auxiliando-a a desenvolver uma referência daquilo que sente e de sua forma de lidar com o vencer e o perder, com angústias, felicidades, saudade….com sentimentos que fazem parte de quem ela é.  Legitimar aquilo que sentimos e entender o que podemos fazer a partir das sensações provindas é um sinal de que estamos fortes para os muitos desafios que a vida pode nos trazer.

Toda criança vem ao mundo com um certo sentido de amor, mas depende dos pais, dos amigos, que este amor salve ou condene.”  Graham Greene

Me. Matheus Rego Silveira

Matheus Rego Silveira é formado em psicologia pela UniFACEF - Centro Universitário Municipal de Franca e Mestre em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela USP - Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Trabalha em Psicologia Social, onde desenvolve estudos e pesquisas-intervenções com crianças vítimas de violência ou em situação de risco e vulnerabilidade; e Psicologia Clínica na abordagem Fenomenológica Existencial.

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