Típico de Homem

Quando voltamos nosso olhar para realidade é perceptível notar que ainda estamos no tempo em que “homens não choram” e o universo masculino explora muito pouco emoções tratadas naturalmente como pertencentes apenas ao universo feminino. Nesse caminho, ainda que não seja novidade que gênero é um construto social culturalmente delimitado, ainda hoje homens e mulheres aderem comportamentos comunicativos normativos para expressarem suas emoções.

Assim, perpetuamos uma sociedade em que o homem sofre coerções de seu próprio gênero proibitivo, ainda que a incapacidade do homem em expressar emoções com a mesma lucidez das mulheres não seja uma característica biológica, mas uma consequência psicológica e comportamental da pressão da sociedade patriarcal que exige deles comportamentos mais racionas e menos emocionais, o que dificulta ainda mais sentirem-se realizados enquanto seres humanos de forma mais completa.

A busca por educar estas crianças a serviço da visão estereotipada do que é ser “macho” acaba por excluir o desenvolvimento e a atualização de potencialidades valiosas para a vida adulta, dentre as quais destaca-se a capacidade de entrar em contato com suas emoções e expressá-las de forma assertiva. As consequências disso são, quase sempre, homens adultos imaturos em aspectos que envolvem emoções como empatia, raiva, insegurança, tristeza, saudade, amor, ciúmes.

Nesses casos, na grande maioria das vezes, eles respondem de forma imatura e ou agressiva a situações em que se sentem “confrontados”. O baixo estímulo durante a infância na forma de lidar com situações angustiantes e no entendimento das emoções, levam meninos a adotarem comportamentos violentos ou evitarem aquilo que lhes geram desconforto e aderindo aquilo que lhes geram prazer. De tal forma crescem e se tornam adultos que desconhecem outra forma de lidar com situações como as descritas aqui. Vale ressaltar que, ainda que haja uma predominância no sexo masculino, o mesmo se aplica a mulheres que em suas histórias de vida não receberam grande investimento em sua educação emocional.

A necessidade de abafar suas emoções, de viver como se elas não existissem ou fossem pouco importantes, pode repercutir em consequências emocionais ainda mais graves como um auto índice de suicídios entre os homens:de acordo com o primeiro boletim epidemiológico sobre suicídio divulgado pelo Ministério da Saúde, entre 2011 e 2016 62.804 pessoas tiraram suas próprias vidas no país, sendo que 79% delas são homens e 21% mulheres.

Uma Outra consequência social alarmante é a violência
doméstica e contra a mulher. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou em 2017 uma média 164 casos de estupros por dia, Doze mulheres são assassinadas todos os dias, em média, no Brasil. São 4.473 homicídios dolosos, sendo 946 feminicídios, ou seja, casos de mulheres mortas em crimes de ódio motivados pela condição de gênero.

Parte de sermos seres humanos está ligada em podermos nos emocionar perante as muitas aventuras vividas durante nossa existência. A maternidade e a paternidade, por exemplo, são momentos que somos convidados a revermos nossos preceitos e entendermos que seremos referência de afeto, carinho e proteção. Assim, a ‘’virilidade” precisa estar além do ‘’durão, salvador, macho’’, mas na importância do homem apropriar-se de sua sensibilidade e priorizar valores que o aproximem de quem amam (parceiras, parceiros, filhos, família). Precisamos reconstruir a visão do que é do universo masculino e feminino, seja por uma vida mais saudável ou por uma sociedade menos adoecida.

Me. Matheus Rego Silveira

Matheus Rego Silveira é formado em psicologia pela UniFACEF - Centro Universitário Municipal de Franca e Mestre em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela USP - Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Trabalha em Psicologia Social, onde desenvolve estudos e pesquisas-intervenções com crianças vítimas de violência ou em situação de risco e vulnerabilidade; e Psicologia Clínica na abordagem Fenomenológica Existencial.

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