Fechados para balanço: Quando desaprendemos a amar

O que faz um relacionamento amoroso dar certo? Será que existe uma receita mágica ou um caminho correto para felicidade na vida a dois? Vivemos buscando formas de assegurar que nosso relacionamento cresça saudável e livre de influências negativas. Ainda assim, qual será o grande pilar ou escudo capaz de suportar as tempestades que um casal pode enfrentar durante a vida?

É normal nos sentirmos inseguros quando começamos a namorar, na verdade é normal nos sentirmos inseguros durante o relacionamento ou mesmo em um casamento, afinal, esse alguém que assume um espaço em nossa vida acaba por receber nossas projeções ligadas a ausências emocionais, fragilidades e ideais de felicidade. Envolvemos o outro em nossos sonhos e planos, em nossos desejos e anseios, e aos poucos ele ou ela se torna alguém cuja a ausência pode nos machucar.

Se a importância que essa pessoa constrói também está ligada ao tipo de parceria que buscamos na vida a dois, lidar com a possibilidade de finitude pode ser angustiante. Essa situação nos colocaria frente a necessidade de desconstruirmos projetos, lidar com a saudade e a memória afetiva ligado ao outro e, é claro, a ausência de quem tanto nos afeiçoamos.

Toda essa gama de razões que nos levam a sentir a insegurança pode configurar-se em nossa psique de diversas formas: ciúmes, dificuldade em criar vínculo, ansiedade, dentre outros. Tais sensações podem influenciar nosso comportamento individual e em casal. Em alguns casos, dependendo da história de vida e possíveis traumas anteriores em relacionamentos pessoais ou dos pais (presenciados durante a infância), esse quadro pode levar o indivíduo ao adoecimento, como crises de pânico, ansiedade, depressão e distúrbios do sono.

Quantos relacionamentos não começaram ou terminaram por que uma das partes não estava preparada para sentir tudo aquilo que vêm junto quando amamos?

Essa é uma história que se não aconteceu com a gente, sabemos que muitos amigos e familiares já conviveram com essa angústia. Sabemos também que esse não é um sentimento que passa sozinho, que basta darmos um tempo e ele sumirá. Se relacionar faz parte de quem somos, e estamos falando de uma dificuldade que pode assumir controle da forma como conduzimos nossa vida, nossas escolhas.

Quem nunca disse ou escutou: “é sempre assim comigo”, “homem nenhum presta”, “eu tenho o dedo podre”, “estou fechado para balanço”.

Seguir.

Para seguir, a primeira parte é ressignificarmos aquilo que vivemos no passado, aceitar que não existe um determinismo ou mesmo uma conspiração do universo contra você. Não há nenhuma regra ligada a gênero, orientação sexual, ou qualquer outra característica. Existem seres humanos imperfeitos, e por serem imperfeitos em sua totalidade, precisamos nos acostumar a um amor que será também imperfeito, ou seja, ele também terá falhas. De tal forma posso afirmar: não é o amor que sustenta o relacionamento é forma de se relacionar que sustenta o amor.

Não existe uma forma de assegurarmos que não iremos mais passar por situações conflituosas em nosso namoro ou casamento. Entretanto, para nos sentirmos mais seguros, precisamos alimentar nosso vínculo com o outro e não nossos medos. Se você se sente inseguro, converse com seu parceiro ou parceira. Traga para relação aquilo que está sentindo e veja se o outro é capaz de cuidar, junto com você, das dificuldades que juntos irão passar durante a jornada a dois. É claro que nem sempre terão maturidade de vida para lidarem com o que acontecer ou sentirem, e são nesses momentos que o casal pode buscar ajuda com amigos, família ou mesmo com um profissional adequado (psicólogo).

Amar é conviver com nossas inseguranças internas diariamente. Medo de perder, medo da traição, medo de ser desvalorizado ou mesmo descartado. Desse modo, não podemos permitir que nossa ansiedade nos impeça de conhecer quem entra em nosso caminho. Através do seu comportamento, o outro nos conta se é ou não a pessoa adequada para nos relacionarmos, se ele será capaz de caminhar junto com você sem desrespeitar ou passar por cima de alguma particularidade. Esse direito de escolher é seu e exige que tenha paciência e consciência de que um relacionamento quando começa com essa sinceridade, também se transforma em uma amizadeprofunda. Um amor verdadeiro precisa ser também uma amizade.

Por fim, vale lembrarmos que somos todos falhos. Que a imperfeição humana é uma de nossas condições e que em nossas relações ela também aparecerá.Pensando assim, vale acreditar que a melhor segurança que podemos ter é a parceria que construímos com quem amamos. Mais importante que jogarmos uns com os outros é estarmos abertos a olhar nos olhos um do outro, sem pressa de enxergarmos, mas preparados para o que será encontrado e, então, construído.

Me. Matheus Rego Silveira

Matheus Rego Silveira é formado em psicologia pela UniFACEF - Centro Universitário Municipal de Franca e Mestre em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela USP - Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Trabalha em Psicologia Social, onde desenvolve estudos e pesquisas-intervenções com crianças vítimas de violência ou em situação de risco e vulnerabilidade; e Psicologia Clínica na abordagem Fenomenológica Existencial.

2 comentários em “Fechados para balanço: Quando desaprendemos a amar

  • 11/02/2019 em 09:31
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    Falou tudo Matheus, vc realmente conhece os sentimentos que afloram sem conhecermos os porquês! Parabéns!

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  • 12/02/2019 em 08:19
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    Que texto maravilhoso!
    Palavras sábias, que entram com facilidade em nossa mente.
    Lendo, me faz recordar das consultas, que saudade!

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