A expressão de nossa essência

Nem de perto podemos dizer que somos seres completos, na verdade em muitos momentos penso que a incompletude humana é parte cravada de sua existência. Estamos sempre em busca de algo, tecendo novas histórias e imaginando novas possibilidades de destino. Sonhar é gostoso, nele podemos abandonar as rédeas da realidade e seguir nossos instintos e impulsos, e a medida que a realidade toca nossos sonhos, eles começam a deixar sua forma imaginária e passam a mesclarem com nossa verdade, aquilo que é possível ser. Daí vem a importância de não ficarmos presos aos ideais e ideias principais, mas de darmos espaço para que a realidade nos permita conhecer aquilo que somos, expressar nosso ser e, assim como um artista, representar o mundo através de nossa essência.

Na filosofia por exemplo, tanto Platão como Aristóteles consideravam inquestionável que o ser humano possui uma essência que o distingue dos demais seres. Todo ser é individual, é uma substância, algo que permanece mesmo com as mudanças, pertence apenas àquela pessoa, há uma autodeterminação e liberdade de ser e de agir, de decidir, de optar, de valorar, inclusive de criar valores. A partir da tomada de consciência de nossa própria natureza, toda a vida pode se expressar com mais leveza, pois passamos a expressar, no mundo, exatamente aquilo que somos: obras de arte, inacabadas e em constante transformação.

Às vezes modernas demais, às vezes conservadoras. Representamos uma época, quebramos paradigmas e reforçamos outros. Estamos sempre gritando algo ao mundo, mesmo que baixinho. As vezes erramos na cor, na pincelada, nos expressamos errado e precisamos limpar com delicadeza a mancha agressiva naquilo que somos. Todo o cuidado e atenção é pouco quando se trata de quem somos, afinal a medida que vamos desenhando a vida, ela também tem seus momentos e passagens frágeis. Como uma tela,  precisamos respeitar nossos limites internos, mesmo que isso signifique acalmar nossa criatividade. Existem momentos em que mesmo as essências e verdades mais fortes precisam descansar, amadurecer, curar. 

Somos seres em potencial e nossa autorrealização dependerá de como nos colocamos no mundo, nossas relações com os outros e sobretudo do quanto nos conhecemos e reconhecemos aquilo que somos. Nesse ponto o autoconhecimento é primordial. Muitas pessoas sabem muito sobre os outros e nada sobre elas mesmas. A maior parte das pessoas acredita que se conhece, mas na verdade se conhece muito pouco.  é ter pleno domínio de si mesmo: em pensamentos, desejos, esperanças, frustrações e crenças. Esse conceito nos permite traçar um mapa pessoal que faz com que tenhamos oportunidade de interpretar melhor quem somos e, principalmente, onde queremos chegar. Assim, teremos um foco maior e também uma certeza do real motivo de estarmos aqui. Podemos dizer que assim como as cores, só chegamos a uma perspectiva diferente das coisas a medida que dialogamos com aquilo que vamos vivendo, afinal, só se obtém a cor verde misturando o azul com o amarelo, e as vezes precisamos trabalhar muito com o vermelho e apurá-lo para conseguirmos um tom de rosa adequado.

A realidade contrasta com nossos sentimentos de medo, inseguranças, felicidades e desejos. Assim, somos nós quem decidimos como e o que iremos pontuar ao mundo. É muito difícil alguém se conhecer interiormente quando a busca está sempre no externo (preocupar-se mais com o corpo, roupas, aquisições). Para podermos expressar nossa verdade é primordial conhecermos nossa essência em relação ao mundo, buscando autonomia e ter pleno domínio de si mesmo: em pensamentos, desejos, esperanças, frustrações e crenças. 

Na vida não temos muito como controlar quando irão esbarrar naquilo que somos ou sentimos. O mundo tem uma velocidade própria e não existe garantia de que só seremos tocados pela doçura das pessoas. Assim, pensar o EU no mundo nos leva a entender que nossa originalidade enquanto arte não depende da validação externa a nós, mas sim de uma busca constante que permeará nossa vida toda. Se pensarmos nossa história como uma pintura, um observador qualquer pode passar os olhos nela e tomar suas impressões, acreditar ter acessado sua essência através da superfície. Entretanto, somente aquele com olhar apurado e desprendido, que através da vontade apenas de conhecer e sem preocupações com rótulos, é capaz de acessar a trajetória vivida entre as cores e as pinceladas. Podemos até julgar o que o outro é e como se apresenta ao mundo, mas só um olhar atento e provido de respeito à liberdade de ser, nos permite acessar a real essência daquele ser humano.

Apenas seja você mesmo sempre, se afilie a pessoas que passam pelo mundo e se expressam de forma parecida com a sua, que te fazem bem e não com as que te ferem. Mais importante que nos preocuparmos com os avaliadores, é estarmos inteiros; e para se estar inteiro é preciso conhecer as partes que nos compões, ter respeito por aquilo que carremos como bagagem e cicatriz, e lutar para que consigamos dar um sentido resiliente a isso. O primeiro passo para saber se expressar é que ninguém precisa determinar como isso deve ser. Algumas vitórias são precisam ser avisadas por algo fora a nós…você vence simplesmente porque continua lutando, pintando sua essência através de seu sorriso, de como trata as pessoas e naquilo que acredita. 

Me. Matheus Rego Silveira

Matheus Rego Silveira é formado em psicologia pela UniFACEF - Centro Universitário Municipal de Franca e Mestre em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela USP - Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Trabalha em Psicologia Social, onde desenvolve estudos e pesquisas-intervenções com crianças vítimas de violência ou em situação de risco e vulnerabilidade; e Psicologia Clínica na abordagem Fenomenológica Existencial.

Um comentário em “A expressão de nossa essência

  • 11/02/2019 em 09:03
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    Amei o texto…reflexão que nos ajuda a nos amar mais. Arte necesdita da observacao, de escolhas, luz…como a vida da gente. Parabéns!😍

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