Não desperdice as voltas que o mundo dá

 

Em muitos momentos da vida nos sentimos injustiçados, seja pela ingratidão de um amigo ou mesmo pela dedicação não recompensada no trabalho. Sem falar nas vezes em que furam nossa fila na entrada de um evento, ou quando passamos despercebidos pela pessoa que desejamos, independente dos nossos esforços.  A verdade é que nem sempre somos reconhecidos ou respeitados, e são nesses momentos em que a ingratidão fica como uma mancha em nossa relação com o outro.

Existem vários níveis e contextos de desrespeito. Certamente não pretendo me aprofundar em suas muitas formar de configurar-se, mas no impacto que podem possuir sobre nós e, principalmente, quero conversar com você a respeito do nosso protagonismo a partir deles, afinal de contas, quanto maior for o nível de intimidade e de investimento na relação com o outro, maior pode ser a intensidade da decepção.

São nessas situações que nos deparamos com as emoções mais difíceis. Somos arremessados à angustiante desilusão. Nos tornamos vítimas assim que identificamos a figura do vilão. Ensaiamos atitudes, respostas, invocamos nossas feras internas e então quantas possibilidades se passam dentro de nós, dramatizadas apenas em nossos pensamentos. Há quem dê vasão ao sentimento de injustiça através da raiva e também quem dê através da tristeza.

Emoções: Facilmente elas atingem nossos comportamentos e a forma como percebemos a realidade a nossa volta. Depois de muito duelar, ou para aqueles que evitam situações de enfrentamento, acabamos por querer dar um sentido quase que cósmico para aquela situação de conflito. Depois de muito doer, uma das formas de aquietar nossa psique é lembrar que: o mundo dá voltas.

Ufa!

Podemos seguir novamente…

Mas calma, pensando bem…àquilo que vivemos diz muito ao nosso respeito.

É quase que fácil silenciar nossa dor quando escolhemos dar um desfecho situacional para ela: “colhemos o que plantamos”, “aqui se faz, aqui se paga”, “o tempo ensina…”, “um dia da caça, o outro do caçador, ” etc. Pensar assim não está completamente errado, sim a vida está em constante transformação e nem sempre estaremos apenas na posição de vitoriosos ou de perdedores. De tempo em tempo as coisas se renovam, os ciclos terminam e abrem-se novos.

Seja pelo mundo capitalista selvagem ou pelos muitos tipos de perfis, caráteres e história de vida das pessoas, às vezes somos sim decepcionados. De diversas maneiras e circunstâncias podemos nos deparar com o lado negativo do ser humano e precisamos buscar entender o que isso conta sobre “o outro na relação com a gente”. Ao fazermos uma releitura na busca de formas de nos protegermos em futuras possíveis parcerias, amizades, ou mesmo formas de nos posicionarmos profissionalmente, acabamos percebendo a importância que é sermos a primeira pessoa que dita os limites e o mínimo aceito para estar em uma relação.

Em tudo que fazemos levamos um pouco de nossa essência, forma de ver as coisas e de colocá-las perante as demais pessoas e situações. Quando somos surpreendidos pela ingratidão nosso primeiro movimento é procurarmos os possíveis porquês e muitas vezes fazemos uma interpretação distorcida: achamos que a postura do outro narra sobre nosso valor pessoal ou profissional. Além disso, em muitos casos também cometemos a injustiça de entendermos a situação como uma condição de nossas vidas, ou seja: nos colocamos na figura de receptador, de quem apenas sofre a ação causada pelo destino ou pelo mundo.

Desse modo, precisamos saber nosso real valor e entender que se as pessoas não pagam por ele, não podem ter presença em certos aspectos da nossa vida! Ninguém consegue entrar em um clube ou fazer uma viagem oferecendo o que quiser. Só podemos comprar ou mesmo ter acesso a lugares que podemos “bancar”. Então pergunto a você: hoje, seus relacionamentos “bancam seu valor correto” para poderem estar com você? Eis que muitas vezes nos pegamos aceitando muito menos desde o início destas relações, como se fosse nosso dever nos contentarmos com o pouco que recebemos: pouco afeto, pouco cuidado, pouca preocupação, pouco respeito.

Outro ponto importante é lembrarmos que, com o tempo, muitas pessoas mudam e a forma como nos relacionamos com elas também precisa mudar. Por isso, quando falamos em amor próprio, nossos investimentos emocionais não podem ser apressados ou desprovidos de um auto senso de resguardo. Pensar assim nos faz entender que todos estamos sujeitos a termos desilusões e nos sentirmos angustiados perante o comportamento de um amigo, namorado(a), chefe ou mesmo colega de trabalho. Entretanto, pensar assim também nos possibilita seguir acreditando que temos o poder de escolha daquilo que escolhemos fazer com aquele relacionamento e, principalmente, aprendemos sobre nosso valor e como empregá-lo em um relacionamento.

Me. Matheus Rego Silveira

Matheus Rego Silveira é formado em psicologia pela UniFACEF - Centro Universitário Municipal de Franca e Mestre em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela USP - Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Trabalha em Psicologia Social, onde desenvolve estudos e pesquisas-intervenções com crianças vítimas de violência ou em situação de risco e vulnerabilidade; e Psicologia Clínica na abordagem Fenomenológica Existencial.

Um comentário em “Não desperdice as voltas que o mundo dá

  • 11/02/2019 em 11:22
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    É fato tentarmos justificar os acontecimentos e concordo que seguir em frente é necessário…crescemos sempre. 😍

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